Viagra azul versus “viagra” rosa: qual a diferença?
E se a única maneira pela qual você consegue medir é perguntando às pessoas, o dado é enviesado.
3. Como ela funciona?
Quase 25 anos e muitos milhões de dólares depois, a indústria farmacêutica nunca conseguiu emplacar uma versão da "pílula azul" para as mulheres. A história do viagra masculino é bastante conhecida. "Quando alguns dos participantes dos testes clínicos começaram a relatar que vinham tendo mais ereções que o normal. Nós inicialmente não demos muita atenção, achamos que se devia ao fato de os participantes serem homens jovens." A decisão de investigar melhor veio quando um trabalho publicado por pesquisadores americanos mostrou como um dos componentes do fármaco que eles vinham testando (chamado inibidor PDE5) agia sobre o tecido do corpo cavernoso do pênis, aumentando a circulação sanguínea na região. "Meu chefe pediu que organizasse um estudo para entender se aquilo era real ou um 'acidente'", lembra Boolell.
6. Ginseng
Tempos depois, as pesquisas com o viagra mostrariam que esse aumento da circulação era de fato capaz de provocar ereções e de mantê-las por mais tempo. E a primeira abordagem da indústria farmacêutica ao voltar seus esforços para um possível viagra feminino se baseava exatamente nesse princípio: literalmente bombear mais sangue para a vagina e para o clitóris. "O tecido que dá origem aos órgãos sexuais femininos e masculinos é o mesmo nas fases iniciais do desenvolvimento do feto", explica Boolell. "Esse tecido vai se diferenciando à medida que é exposto aos hormônios, mas as células-tronco que dão origem aos órgãos sexuais são essencialmente as mesmas [em meninos e meninas]. E a enzima fosfodiesterase tipo 5 [PDE5] também está presente no tecido genital feminino. É diferente de uma ereção, que é algo observável.
- A investigação sobre o sildenafil feminino foi largamente abandonada após o fracasso de ensaios de fase III, que não mostraram benefícios estatisticamente significativos.
- Em Portugal, o aconselhamento psicológico e a terapia cognitivo-comportamental são frequentemente mais eficazes do que fármacos para perturbações do desejo sexual feminino.
- O sildenafil pode exacerbar enxaquecas em mulheres propensas, devido ao seu efeito vasodilatador.
- Não existem formulações de sildenafil adaptadas à mucosa vaginal, como cremes ou óvulos, que poderiam reduzir os efeitos sistémicos.
- A crença cultural de que a sexualidade feminina deve ser espontânea e não medicalizada influencia a baixa procura por soluções farmacológicas em Portugal.
- O uso de sildenafil em mulheres com historial de abuso sexual deve ser cuidadosamente avaliado, pois pode reativar traumas sem resolver a causa subjacente.
A excitação feminina é tão mais complicada..." Nesse sentido, Diamond menciona uma área de pesquisa da sexualidade feminina chamada
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de estudos de concordância, que investiga a conexão e desconexão entre a resposta sexual fisiológica e a resposta cerebral. Nos homens, na maioria das vezes a excitação sexual subjetiva - ou seja, o que acontece no cérebro - conversa com o que está acontecendo na genitália.
- O mecanismo de ação do sildenafil, inibindo a fosfodiesterase tipo 5, aumenta o fluxo sanguíneo genital, o que pode teoricamente melhorar a lubrificação e a sensibilidade.
- A Agência Europeia de Medicamentos nunca aprovou o sildenafil para tratar qualquer forma de disfunção sexual feminina.
- Alguns médicos em Portugal podem prescrever sildenafil a mulheres em casos excecionais de hipertensão pulmonar, uma indicação aprovada independentemente do sexo.
- A falta de eficácia demonstrada em grandes ensaios clínicos levou a que a maioria das farmacêuticas abandonasse o desenvolvimento do sildenafil para mulheres.
- O uso recreativo de sildenafil por mulheres jovens não é comum em Portugal e não há dados que sustentem a sua segurança nesse contexto.
- As farmácias comunitárias não dispensam sildenafil sem receita médica, independentemente de quem o solicita.
O homem sente desejo e tem uma ereção.
Para que serve
"Há uma desconexão em muitas mulheres entre as mudanças na genitália e as mudanças no cérebro [durante a resposta sexual]", disse na ocasião. "Essa desconexão não existe entre os homens. Homens têm ereções consistentemente na presença de mulheres nuas e querem fazer sexo. Com as mulheres, as coisas dependem de uma miríade de fatores." Depois do fracasso, as farmacêuticas gradativamente fecharam as torneiras e o ciclo do financiamento abundante para pesquisas em fisiologia sexual minguou. Prause, que a essa altura já estava no departamento de Psiquiatria da Universidade da Califórnia como pesquisadora associada, começou a enfrentar resistência interna na instituição para continuar tocando um estudo sobre orgasmo e depressão.
1. Flibanserin
Apesar de ter conseguido financiamento privado para sua pesquisa, ouviu da universidade que não poderia aceitar o dinheiro - uma postura que ela atribui ao caráter "controverso" de sua pesquisa. Terminado seu contrato com a UCLA, sildenafil liquido ela resolveu fundar a Liberos, um instituto de pesquisa independente. "Há ainda um grande estigma em relação a qualquer coisa que se proponha a lidar com problemas sexuais das mulheres", diz ela. "Uma pílula é considerado algo 'aceitável', mas qualquer coisa mais ligada à sexualidade é vista por muitas empresas como algo que pode causar dano à imagem, algo que pode ser visto como pornográfico. Passadas quase duas décadas, uma farmacêutica não havia desistido do viagra feminino - mas focava em outro órgão, o cérebro. No caso das mulheres, é mais comum que ocorra uma desconexão entre as duas esferas.
Será que médicos realmente descobriram uma pílula que aumenta a libido das mulheres?
Em 2015, a Sprout colocou no mercado o flibanserin, medicamento originalmente desenvolvido como antidepressivo e que atua nos níveis dos hormônios dopamina e serotonina com a promessa de aumentar a libido feminina. A droga foi recebida de forma crítica pelos especialistas. Nos testes clínicos, o aumento no número de episódios sexuais satisfatórios (uma medida relativamente subjetiva usada pelo órgão regulatório americano, o FDA, para avaliar essa categoria de medicamentos) observados em um mês entre as participantes ficou entre 0,5 a 1, quando comparado aos resultados do grupo submetido ao placebo. Ou seja, no intervalo de um mês, as mulheres que tomavam o medicamento relataram um episódio sexual satisfatório - ou menos - a mais do que aquelas que o não tomavam. Muita gente considerou que o custo-benefício não valia a pena.
2. Citrato de sildenafila quanto tempo para fazer efeito?
Ao contrário do viagra, o flibanserin tem de ser tomado diariamente, e pode causar tontura, fadiga e náusea. Também não pode ser consumido por mulheres que ingerem álcool - como o uso é diário, quem opta por tomá-lo tem de parar de beber. A droga chegou a ser rejeitada duas vezes pelo Food and Drug Administration (FDA), o órgão regulatório americano, antes de ser aprovada. Uma das vozes críticas foi a da professora do departamento de Psicologia da Universidade de Utah Lisa Diamond, que pesquisa a sexualidade feminina. A cientista chegou a participar, a convite da farmacêutica que lançou o flibanserin, de um painel com especialistas que simulava o formato adotado pelo FDA - um procedimento que as empresas às vezes fazem para se preparar melhor para o processo "real". Uma mulher pode ter sinais físicos de excitação - o aumento de fluxo sanguíneo para a vagina e clitóris,
1. Existe uma explicação para a queda do desejo?
A questão central, nesse caso, é que o mecanismo de manifestação do desejo é bastante diferente entre homens e mulheres. Na visão de Prause, ainda que tudo isso estivesse claro desde cedo para muitos dos cientistas envolvidos nas pesquisas, o potencial de vendas de uma droga que pudesse chegar ao mercado com o mesmo marketing do viagra fez com que muitas farmacêuticas ignorassem os alertas. "Nós avisamos que não iria funcionar", ela reitera. Então estudante de pós-graduação no prestigioso Kinsey Institute, Prause acompanhava seu mentor quando, no começo dos anos 2000, se envolveu em um dos projetos do viagra feminino. Na primeira reunião com o grupo que conduziria a pesquisa, uma surpresa: apenas homens - a maioria acima dos 50 anos, médicos e sem PhD, ou seja, sem treinamento aprofundado em pesquisa científica.
Interacções medicamentosas
"Tinha uma secretária também, que entrava na sala às vezes para servir bolinhos", ela brinca, emendando que acredita que os envolvidos "estavam lá com a melhor das intenções, que queriam ajudar as mulheres e realmente achavam que estavam diante de algo que poderia fazer isso". Ainda assim, a sensação é de que "não houve um debate razoável sobre o que é resposta sexual feminina - os gatilhos para o desejo e a excitação, a conexão (ou desconexão) entre o que acontece no cérebro e no restante do corpo - e sobre por que aquela abordagem provavelmente não iria funcionar". "E isso não é algo único daquela empresa", completa a cientista. Boolell concorda que a indústria farmacêutica deveria "ter ouvido mais as mulheres". Em 2004, quando a Pfizer anunciou que estava suspendendo seu projeto, ele deu uma série de entrevistas para explicar os motivos. por exemplo -, mas não necessariamente sentir desejo ou vontade de se engajar em alguma atividade sexual, e vice-versa.
O fracasso da primeira onda de pesquisas
Então nós pensamos: 'Bom, se funcionou com os homens, tem uma boa chance de que tenha impacto nas mulheres'." Os exames fisiológicos chegavam a mostrar um aumento da circulação sanguínea na vagina e no clitóris, mas tanto as participantes do grupo placebo quanto as que estavam tomando viagra não relatavam melhora na função sexual. Outras farmacêuticas realizando pesquisas semelhantes vinham se deparando com o mesmo problema - o que não chegava a ser surpresa para os especialistas em fisiologia sexual que já pesquisavam como a questão do fluxo sanguíneo se encaixava na equação da satisfação sexual. Esse era o caso da cientista Nicole Prause, na época envolvida em um dos projetos do viagra feminino nos EUA. O aumento do fluxo de sangue para os órgãos sexuais também faz parte da resposta sexual feminina. Quando uma mulher fica excitada, o corpo intensifica a circulação sanguínea nas paredes vaginais e no clitóris, que aumenta de tamanho, assim como os pequenos lábios - um processo chamado vasocongestão.
4. Tribulus terrestris
O problema é que, muitas vezes, as mulheres não chegam nem a se dar conta de que isso acontece. "Nós estudamos isso por anos e, para as mulheres, não é tão fácil autoavaliar a vasocongestão", ressalta Prause. "Então nós sabíamos que a chance de fazermos algo nesse sentido e de que as mulheres relatassem que de fato estavam sentindo alguma coisa era praticamente zero." A maioria dos problemas sexuais das mulheres não tem relação com um fluxo insuficiente de sangue para região genital, destaca Lori Brotto, professora do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, e diretora do Laboratório de Saúde Sexual da mesma instituição. Especialmente o mais comum deles: a perda ou a redução do desejo sexual. Nos homens, aliás, o viagra não funciona sem desejo - é preciso "ativação" do cérebro para que haja ereção. "Pessoalmente acho que muito disso tem a ver com o fato de que, para os meninos,
| Entidade reguladora | Estado atual | Indicação aprovada | Utilização off-label |
|---|---|---|---|
| INFARMED | Não aprovado para mulheres | Apenas disfunção erétil masculina | Possível com prescrição médica |
| EMA | Sem indicação feminina | Nenhuma | Responsabilidade do médico prescritor |
| FDA | Não aprovado para disfunção sexual feminina | Nenhuma | Uso experimental em ensaios |
| Ordem dos Farmacêuticos | Recomenda precaução | Não aplicável | Dispensa mediante receita válida |
quando estão crescendo, é mais fácil ligar os sentimentos com o que está acontecendo no corpo.
Mulheres realmente não devem tomar sildenafil? entenda o que acontece
Com acesso aos dados da pesquisa, chamaram-lhe atenção os registros diários dos relatos dados pelas participantes aos pesquisadores e o fato de que as mulheres que estavam no grupo placebo também tinham experimentado aumento da libido. "A partir do momento em que as mulheres começaram a se perguntar sobre desejo, elas passaram a sentir desejo! Não seria mais barato comprar um diário do que tomar uma pílula? "Nós obviamente depreendemos de dados como esses que o desejo é uma experiência complexa. Não é como uma bolha que estoura, é uma experiência consciente. Meninas não são encorajadas a explorar o próprio corpo e não têm a menor ideia do que
| Mecanismo | Local de atuação | Efeito fisiológico esperado | Relevância clínica |
|---|---|---|---|
| Inibição da fosfodiesterase tipo 5 | Tecido erétil clitoridiano | Aumento do GMPc e vasodilatação | Melhoria da ereção clitoridiana |
| Relaxamento do músculo liso vascular | Artérias pélvicas e vaginais | Maior fluxo sanguíneo regional | Aumento da lubrificação vaginal |
| Modulação do óxido nítrico | Endotélio dos corpos cavernosos | Potenciação da resposta ao estímulo sexual | Facilitação da excitação subjetiva |
| Redução do tónus simpático local | Plexo nervoso pélvico | Diminuição da vasoconstrição | Melhoria da vasocongestão genital |
está acontecendo lá embaixo - então muitas mulheres acabam dissociando o corpo da cabeça", diz a pesquisadora.
- O sildenafil é um dos medicamentos mais falsificados do mundo, e a sua compra fora do circuito legal representa um risco acrescido para as mulheres.
- Em Portugal, a literacia em saúde sexual é baixa, e muitas mulheres desconhecem que a excitação e o desejo são processos distintos que o sildenafil não unifica.
- O sildenafil não é um tratamento para a anorgasmia feminina, e a sua utilização para esse fim não é suportada por evidência científica.
- A menopausa precoce ou induzida por quimioterapia pode causar disfunção sexual que não responde ao sildenafil, exigindo uma abordagem hormonal e psicológica integrada.
- O futuro da farmacoterapia para a disfunção sexual feminina em Portugal passa por moléculas que atuem no sistema nervoso central, e não apenas na vascularização genital.
- Nenhuma seguradora de saúde em Portugal comparticipa o sildenafil para uso feminino off-label, e o seu custo pode ser proibitivo para muitas mulheres.
- O sildenafil pode alterar transitoriamente a perceção das cores, um efeito secundário raro mas que pode ser alarmante para quem o desconhece.
- As mulheres com doenças renais ou hepáticas devem evitar o sildenafil, pois a eliminação do fármaco pode estar comprometida.
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